Como sair do Brasil mudou minha visão sobre fazer e divulgar ciência – Camila Meira

Eventualmente convido pessoas com experiências de interesse para serem compartilhadas aqui no blog,  “Entrevistas” .

Este post é o relato da Camila Meira (Instagram @milameira e Twitter @cami_meira, uma cientista brasileira engajada em terras canadenses.

IMG-20180815-WA0014
Camila Meira apresentando sobre os parasitos no acampamento de ciências para crianças na faculdade, junto com outros estudantes do HPI

Segue o relato da Camila Meira

 

Tive contato com a pesquisa científica ainda muito cedo. Sou filha de mãe bióloga, pesquisadora, e isso fez toda diferença, pois cresci num ambiente em que a minha curiosidade e minha paixão por ciências naturais sempre foram encorajadas e estimuladas. Lembro muito bem que minha mãe fazia questão de me levar para as feiras de ciências promovidas por institutos de pesquisa na cidade onde eu morava e aquilo era o céu para mim.

Hoje tenho 26 anos e sou bacharel em ciências biológicas pela Universidade Federal da Bahia (UFBA) desde 2015. Logo no segundo ano de faculdade comecei a estagiar como estudante de iniciação cientifica na área de patologia e dali em diante não parei mais de pesquisar.

Em 2013 tive a chance de estudar fora do país pelo programa Ciência sem Fronteiras e foi durante esse período que vivenciei uma realidade bem diferente da qual estava acostumada. Foi quase um ano e meio que passei inicialmente na Universidade de Calgary, no Canadá, e a primeira coisa que me impressionou foi a estrutura do lugar e a infinidade de recursos disponíveis para os estudantes, dentro e fora da sala de aula. Lembro, por exemplo, que em determinado semestre tínhamos um projeto na disciplina de microbiologia que envolvia a identificação de algumas espécies de bactérias que foram distribuídas aleatoriamente entre os estudantes. Para o processo de identificação, usávamos vários testes que acessavam características metabólicas e comportamentais das colônias de bactérias. Foi nesse momento que comecei a me sentir um verdadeiro “pinto no lixo” com a abundância de reagentes e a variedade de testes que estavam em todas as aulas em nossas bancadas, enquanto que, no Brasil, sempre tive acesso restrito a esse tipo de material  e muitos desses testes eu só havia conhecido por livros até então.

Essa sensação de estar em outro mundo se intensificou quando iniciei um estágio em um laboratório da universidade. A facilidade e a rapidez com que os materiais do laboratório eram, respectivamente, comprados e recebidos contrastavam drasticamente com o processo burocrático e a dificuldade de conseguir qualquer coisa em tempo hábil para concluir um projeto de pesquisa no meu antigo laboratório.

Quando voltei ao Brasil, encarei novamente a velha realidade. Concluí a minha graduação com muito sufoco durante um período turbulento nas universidades federais, marcado pela situação instável da coordenação do meu curso e pela greve de professores da UFBA que exigiam reajuste salarial ao governo federal.

Foi então que aceitei o convite oficial do professor que tinha me orientado durante o estágio no Canadá para retornar a Universidade de Calgary e iniciar um programa de pós-graduação. Mesmo com todas as dificuldades que o ensino superior e as pesquisas no Brasil estão enfrentando, não foi uma decisão fácil deixar o país, o convívio com outros pesquisadores no meu laboratório, minha família e tudo aquilo que tive como referência por mais de vinte anos.

A verdade é que o início foi bem complicado, uma vez que a adaptação é algo que geralmente leva algum tempo. A minha mais nova realidade era diferente daquela que tinha encontrado como estudante do Ciência sem Fronteiras, até porque as responsabilidades eram maiores, estava começando a desenvolver e a coordenar meu próprio projeto de pesquisa e já não fazia parte de um grupo de brasileiros que estavam se apoiando em terras estrangeiras.

Mas o que me motivou e me motiva até hoje é ter um orientador muito entusiasta, que se preocupa genuinamente com seus estudantes, e o fato de ter acesso a tantos recursos que me permitem explorar diversas facetas do meu projeto ao invés de ficar totalmente engessada dentro de um proposta inicial. Além disso, a universidade investe em  iniciativas que auxiliam os estudantes com questões relacionadas tanto a saúde física e emocional, quanto ao próprio aprimoramento de habilidades que são essenciais na carreira de um pesquisador.

Atualmente faço parte do programa Host-Parasite Interactions (HPI) que fornece treinamento interdisciplinar para estudantes na área de parasitologia e engloba as três principais universidades da província de Alberta. A proposta do HPI é preparar o estudante não só para a carreira acadêmica, mas também torná-lo apto para ocupar espaços fora do ambiente acadêmico, seja na indústria ou em cargos públicos. Outro ponto importante é o engajamento e a interação com a comunidade local que são essenciais dentro do programa.

De fato, a divulgação cientifica é uma atividade que faz parte do cotidiano de muitos estudantes por aqui e é incentivada pela maioria dos mentores e pela própria universidade.

Esse tipo de trabalho voluntário, seja em feiras de ciências, apresentações em colégios, ou em qualquer outro projeto educativo voltado para a comunidade, é quase visto como um dever do pesquisador. Pra mim, tem sido uma experiência gratificante e motivadora poder falar da minha pesquisa ou debater tópicos relacionados a minha área de conhecimento com públicos de todas as idades, usando uma linguagem acessível.

No começo foi bastante desafiador sair da zona de conforto e encarar os olhinhos curiosos das crianças que me abordavam nos stands e me enchiam de perguntas. Digo que foi desafiador pelo fato de não dominar bem a língua no início e também por achar que não conseguiria conciliar as demandas do meu projeto de pesquisa com as atividades fora do laboratório. Mas eu estava errada (e nunca fiquei tão feliz por estar errada!) e hoje percebo o quão fundamental tem sido popularizar a ciência e o quanto isso tem ajudado a melhorar a forma como lido com o público, com a pesquisa e com a minha vida de maneira geral.

Esse foi um dos motivos que recentemente me levaram a criar o canal do YouTube “Milocando” e a me tornar mais ativa no Instagram e no Twitter, promovendo reflexões e debates relacionados a ciência e a vida do pesquisador. Essa também foi uma  forma que encontrei de humanizar o cientista, quebrando aquele conceito antiquado de que só gênios fazem ciência e que cientista é quase um deus.

Meu intuito é mostrar que o pesquisador é um ser humano como qualquer outro que erra, que tem limitações e que depende de uma rede colaborativa pra desenvolver suas ideias e solucionar problemas.

Photo by Vlad Tchompalov on Unsplash

Escrito por Juliana Reis

Atualmente trabalho na pesquisa do doutorado, na escrita de artigos,  no desenvolvimento de ferramentas de apoio à boas práticas científicas, em apresentações e cursos relacionados com as temáticas: mobilização, tradução e gestão do conhecimento. Twitter @a_julianareis

um comentário

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s