Na atenção plena um elemento norteador das práticas é tornar-se um principiante. Este elemento tem o objetivo de tirar-nos do piloto automático.

A comunicação científica nos tira constantemente desse lugar de piloto automático e nos leva a posição de principiante. Pois tem sempre novos artigos com resultados de pesquisa, artigos de opinião sendo publicados e nos fazem remodelar, confirmar ou ampliar o que se sabe sobre determinado assunto.

Recentemente, li o livro “A história secreta da criatividade” de Kevin Ashton, professor do MIT e  criador do conceito “internet das coisas”. No capítulo 4, Como enxergamos, Kevin conta a história de Robin Warren, um patologista que em 2005 ganhou juntamente com o gastroenterologista Barry Marshall, o prêmio Nobel de fisiologia pela descoberta da bactéria Heliocobacter pylori, ou H. pylori.  Entretanto, foi longo o processo de mudança de paradigma – considerar que a presença de bactérias no estômago poderia proporcionar úlceras gástricas, até então acreditava-se que no estômago não haviam bactérias por conta do pH ácido.

Em junho de 1979, Robin Warren em seu relatório sobre a biópsia analisada escreveu:

”Contém numerosas bactérias. Elas parecem estar crescendo ativamente, não parece ser um contaminante. Não tenho certeza do significado e da importância dessa descoberta incomum, mas pode valer a pena investigar mais.”  

Durante dois anos, Robin coletou amostras das bactérias, até que ele encontrou alguém que acreditou nele, Barry Marshall e os dois começaram um trabalho de colaboração. Posteriormente, enviaram uma carta para o periódico científico Lancet relatando a descoberta. O editor da Lancet, Ian Munro, não conseguiu encontrar revisores que apoiassem esse descoberta. Entretanto, Munro publicou a carta: ”Se a hipótese dos autores se mostrar válida, este trabalho é de fato muito importante”. E eles continuaram as pesquisas e provaram que H. pylori causa úlceras gástricas.

O que Robin viu não era inédito, muitos já haviam visto. A única coisa que não haviam feito era acreditar no que tinham visto.

Ainda neste capítulo, Kevin detalha o processo da mudança de paradigma e discute como temos uma visão seletiva. Muitas vezes não enxergamos o que estamos vendo. 

O que isso significa no cotidiano da escrita, do desenvolvimento de habilidades, de descobertas e avanço do conhecimento?

Na minha opinião, exercitar na prática o elemento  principiante é estar disponível para contar novas histórias.

No contexto da publicação científica é estar aberto para conhecer o que nos possibilita ampliar o campo de visão e aprofundar em temas já visitados.

Por exemplo, considerar uma revisão de literatura ao iniciar um projeto parecer ser piloto automático, mas não é. É uma prática principiante. Pois parte da exploração do tema para uma jornada de descoberta e avanço de conhecimentos. 

Outro exemplo, querer aprender novas ferramentas e ter a liberdade de escolher qual é a que nos atende melhor para utilizarmos. 

Para esta semana, quero propor um exercício: escolha uma atividade que você realiza com muita frequência e faça-a como se fosse a primeira vez. Observe o que foi diferente. O que acrescentou. Comente a experiência aqui se você desejar.

Para saber mais: 

Veja este artigo curto publicado na Lancet sobre Robin Warren e Barry Marshall 

Como a atenção plena e a produtividade andam lado a lado 

Photo by James Pond on Unsplash

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